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A Doutrina Social da Igreja Católica e a Nova Ordem Mundial

Vitor Barreto Comentário de Julio Severo:   O papel de João Paulo II contra o aborto e contra o comunismo não deixa dúvidas e merece a...

Vitor Barreto
Comentário de Julio Severo: O papel de João Paulo II contra o aborto e contra o comunismo não deixa dúvidas e merece admiração e respeito. Mas mesmo com esse papa anticomunista, havia uma América Latina majoritariamente católica adepta da Teologia da Libertação. Por que o catolicismo latino-americano, inclusive o catolicismo do Brasil (a maior nação católica do mundo), está tão envolto em marxismo, socialismo e esquerdismo? Vitor Barreto tenta dar uma explicação. Eis seu texto:
Já há algum tempo que o Vaticano tem feito apelos por uma Nova Ordem Mundial. João XXIII parece ter sido o primeiro papa a pedir por uma "autoridade mundial". Além dele, Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e atualmente o papa Francisco I continuam o discurso. Ainda que existam suspeitas por parte de muitos católicos conservadores contra o papa Francisco I, o discurso de papas conservadores como Bento XVI não deixa espaço para dúvidas sobre a influência da Doutrina Social da Igreja Católica Romana no apoio a uma Nova Ordem Mundial. Vejamos o que ele escreveu na encíclica "Caridade na Verdade" [1]:
"A atividade económica não pode resolver todos os problemas sociais através da simples extensão dalógica mercantil. Esta há-de ter como finalidade a prossecução do bem comum, (...)".
Bento XVI reafirma a condenação histórica do livre mercado pela Doutrina Social. O "bem comum" e outros tantos termos derivados da influência aristotélica na obra de Tomás de Aquino estão presentes no texto. Ratzinger, em seguida, é bem claro quanto à influência da "Rerum Novarum" nesse posicionamento. Comentando a "Progresso Popular" de Paulo VI, ele disse:
"Estendia assim ao plano universal as mesmas instâncias e aspirações contidas na Rerum novarum, escrita quando pela primeira vez, em consequência da revolução industrial, se afirmou a ideia — seguramente avançada para aquele tempo — de que a ordem civil, para subsistir, tinha necessidade também da intervenção distributiva do Estado."
Pouco depois, o papa defendeu explicitamente o assistencialismo:
"A vitória sobre o subdesenvolvimento exige que se atue não só sobre a melhoria das transações fundadas sobre o intercâmbio, nem apenas sobre as transferências das estruturas assistenciais de natureza pública, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de atividade econômica caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunhão."
O subdesenvolvimento não deveria ser vencido através do trabalho? Os malefícios do assistencialismo estatal são velhos conhecidos dos economistas liberais como Milton Friedman. É justamente o assistencialismo que está prejudicando a Suécia, por exemplo. O economista Per Bylund, comentou o assunto:
"O estado assistencialista cria problemas e conflitos em vários níveis, forçando as pessoas a competir por fatias cada vez mais decrescentes de riqueza. A solução: mais regulamentação e menos prosperidade. Isso é o que acontece quando a necessidade e a vontade substituem o mérito e a experiência, tanto na moralidade pública como na pessoal."[2]
O intervencionismo estatal é na verdade uma distorção da caridade cristã. A caridade é um ato de graça, e, por definição, é voluntário e imerecido para o beneficiado. Quando a caridade torna-se uma política econômica obrigatória, ela necessariamente elimina a liberdade do indivíduo tributado. Contudo, os termos colocados pela Doutrina Social da Igreja Católica imputam ao doador uma obrigatoriedade cuja negação é interpretada como "injustiça". E é exatamente isso que o Ratzinger faz na defesa do estado de bem-estar:
"Por isso a difusão dos ambientes de bem-estar a nível mundial não deve ser refreada por projectos egoístas, protecionistas ou ditados por interesses particulares."
Poucas mentes estão vacinadas contra esse tipo de chantagem. Caridade "forçada" não é caridade, e sim roubo. Uma é a função da igreja, outra do estado. O Reino de Deus está em construção, mas ainda existe joio no meio do trigo. É impossível — e ímpio — forçar o joio a ser trigo. As bases que sustentam o intervencionismo estatal sustentam a visão positivista que a Igreja Católica tem da Nova Ordem Mundial.
"Por isso é preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orientação cultural personalista e comunitária, aberta à transcendência, do processo de integração mundial."
"Para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequência maiores desequilíbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a segurança alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios urge a presença de uma verdadeiraAutoridade política mundial, delineada já pelo meu predecessor, o Beato João XXIII. A referida Autoridade deverá regular-se pelo direito, ater-se coerentemente aos princípios de subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecução do bem comum, comprometer-se na realização de um autêntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. Além disso, uma tal Autoridade deverá ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos. Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as próprias decisões, bem como as medidas coordenadas e adoptadas nos diversos fóruns internacionais. É que, se isso faltasse, o direito internacional, não obstante os grandes progressos realizados nos vários campos, correria o risco de ser condicionado pelos equilíbrios de poder entre os mais fortes. O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário para o governo da globalização e que se dê finalmente actuação a uma ordem social conforme à ordem moral e àquela ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera económica e civil que aparece já perspectivada no Estatuto das Nações Unidas."
Esse é o caminho exatamente oposto às conquistas recentes dos direitos individuais, seja nos EUA, seja na Inglaterra com a Revolução Gloriosa. A propriedade privada para os católicos romanos transformou-se, por influência de Tomás de Aquino, em uma mera hipoteca a serviço do "bem comum".
Contudo, a Bíblia jamais apoiou tal impressão a respeito da propriedade privada. Quando pregadores como John Newton e John Wesley influenciaram a Inglaterra por direitos aos trabalhadores e pela abolição da escravidão, não estavam exigindo caridade, mas justiça. Pois "o trabalhador é digno de seu salário". O mandamento "não furtarás" me parece nunca ter sido tão necessário em uma escala global como é hoje.
Existe, na contramão da Doutrina Social, argumentos bíblicos suficientes para condenar sua postura diante do livre mercado. Vejamos apenas a parábola dos talentos, ditada pelo próprio Cristo.
O Senhor fala da divisão dos talentos de um homem entre 3 servos. O primeiro recebeu 5 talentos, o segundo recebeu 2 e o terceiro apenas 1. O que o Senhor exigiu dos três quando retornou? Exigiu lucro. O último dos 3, porém, não gerou lucro algum. Por acaso o homem da parábola dividiu o lucro dos dois servos bons com o terceiro que não lucrou? Não. Antes, ele foi demitido.
Nessa parábola, Jesus quis ilustrar a Justiça de Deus. Ora, se Jesus não considerasse a busca pelo lucro justa, como poderia ele usá-la como modelo para o Reino de Deus? Não poderia. Mas porque cada um recebe aquilo que merece, exceto pela misericórdia, não é da justiça que aquele que lucrou com seu trabalho seja obrigado, pela lei civil, a repartir o que tem contra sua vontade.
É certo, porém, que a avareza e a dureza de coração são condenadas diante de Deus. Mas o direito à propriedade privada não é anulado por isso. Devemos, portanto, estabelecer a correta diferença entre o direito à propriedade e a caridade dentro da justiça do trabalho. Não é da justiça a divisão dos lucros.
Entretanto, a teologia tomista torna a propriedade privada subjetiva. Para ela, a propriedade não serve ao indivíduo, mas ao grupo, e por isso pode ser tomada para servir aos propósitos que as cabeças dos homens julgam como "bem", ainda que o apóstolo Paulo tenha rejeitado enfaticamente qualquer tipo de assistência. "Quem não quer trabalhar, melhor que não coma", disse ele.
Quando Deus tirou o povo do Egito, não deu ao povo o direito de tomar aquilo pelo que não tinha trabalhado, mas apenas aquilo que era fruto de seu próprio trabalho. Séculos antes, Deus agiu com providência na vida de Jacó quando este decidiu sair da presença de seu sogro. Jacó saiu com aquilo que ajudou pessoalmente a construir. Ele gerava tanto lucro que seu sogro (um verdadeiro "porco capitalista" nessa narrativa bíblica) não desejava que partisse. O trabalhador é digno daquilo que ajuda a construir, e não do que outro constrói. Você quer doar seu salário aos necessitados? Glória a Deus. Certamente ele se agradará. Mas a doação pressupõe a falta de mérito do beneficiado. A caridade não anula o direito à propriedade.
Somos dignos de salvação? Não, porque não cumprimos a lei. Cristo cumpriu a lei. Ele cumpriu a lei por nós e, por caridade, por misericórdia, pagou nossa dívida. Mas nós não justificamos a nós mesmos, não merecemos a Salvação. Para nós ela é "impossível" (Mateus 19:25-26). A Doutrina Social da Igreja Católica, porém, inverte a própria noção de justiça. Deus não tinha obrigação de dar-nos salvação. Ele deu porque quis. Se um pobre é "injustiçado" por existir diferenças materiais ou culturais no mundo, a culpa é dele mesmo, e não daquele que trabalhou. Se a caridade fosse obrigatória pela lei civil, teríamos que considerar a Salvação como fruto de dívida de Deus para conosco, e não como fruto da Graça, o que seria absurdo.
É importante compreender finalmente que a Igreja Católica está substituindo o poder do Evangelho pelo poder estatal. Não é a força das leis que mudará o coração dos homens, mas a Graça de Deus. Mesmo os contribuintes não estão sendo caridosos quando seu dinheiro é usado no assistencialismo. Estão sendo forçados e chantageados pelas leis civis a fazerem aquilo que não querem. E isso não é caridade — repito. Isso é roubo. Cabe a Deus julgar os avarentos.
Fontes: